História da Matemática

segunda-feira, setembro 04, 2006

Galileu

Astrônomo e físico italiano (1564 - 1642)

Quando era ainda estudante de Medicina na Universidade de Pisa (curso que cumpria para atender ao desejo de seu pai), Galileu Galilei acompanhou, por acaso, uma palestra sobre Geometria. Ficou tão interessado que começou a ler livros de Arquimedes sobre esse assunto e até convenceu o pai a deixá-lo trocar de carreira. Mais tarde, nas experiências científicas que viria a realizar, ficaria visível seu empenho em traduzir os fenômenos físicos em termos quatitativos (ou seja, em medidas) e em descobrir as relações matemáticas que os descrevessem de maneira mais simples.
Ainda estudante, com 17 anos, ele constatou, ao observar um lustre oscilando na catedral, que os períodos de oscilação eram constantes, não dependendo da amplitude do movimento. Para confirmar sua descoberta, construiu dois pêndulos iguais e os pôs em movimento, com amplitudes diferentes.
Ambos se moveram com o mesmo período, demonstrando que sua observação era correta e válida para qualquer pêndulo. (É interessante saber que desprovido de relógios adequados para efetuar as medições, Galileu recorreu a suas próprias pulsações cardíacas. Só após sua morte é que o holandês Christiaan Huygens criaria um relógio suficiente preciso, baseado, aliás, nas propriedades do pêndulo detectadas por Galileu.)
Na época, aceitava-se a idéia de Aristóteles de que a velocidade de queda de um corpo era proporcional ao seu peso: corpos mais pesados cairiam mais rapidamente que os mais leves. Galileu demonstrou que os objetos leves eram apenas retardados pela resistência do ar; na queda de diferentes objetos pesados e compactos, não havia diferença de velocidade. Isso o fez supor que, no vácuo, todos os corpos, não importando seu peso ou forma, cairiam com velocidades iguais. (Isto só pôde ser demonstrado experimentalmente bem mais tarde, pelo inglês Robert Boyle, quando já se conseguia produzir um vácuo mais perfeito.)
Diz-se que Galileu subia na torre inclinada de Pisa para demonstrar esse fenômeno, fazendo cair duas bolas de canhão, mas ele não deixou qualquer descrição dessa experiência. O que existe, isto sim, é o registro dos experimentos com o plano inclinado (ele fazia rolar objetos por um plano inclinado), que lhe permitiram demonstrar, com medições mais precisas, a igualdade dos tempos de queda. Esse artifício também lhe permitiu concluir que a velocidade de queda aumenta constantemente (ou seja, que a queda é um movimento uniformemente variado).
Das idéias deixadas por Galileu, provavelmente a mais famosa foi seu conceito de inércia. Segundo ele, a inércia seria a tendência dos corpos a se manterem em repouso ou em movimento retilíneo e uniforme, razão pela qual um objeto situado na superfície não é deixado para trás enquanto o planeta se move e pela qual a trajetória de um corpo (por exemplo, uma seta disparada de um arco) não parece ser afetada pelo movimento terrestre.
As diversas descobertas de Galileu formaram uma base para a ciência da Mecânica, que frutificaria plenamente no trabalhos de Newton, no século seguinte. Essa progressão de idéias ajudou a estabelecer em ciência um tipo de visão chamado "mecanicista": todos os fenômenos poderiam ser analisados em termos mais simples, como se fossem compostos de alavancas, roldanas, engrenagens e forças mesuráveis a impulsioná-los. (Tal visão permaneceria imbatível até o início do século XX.)
Galileu é, porém, até hoje amplamente lembrado pela maneira como escapou de ser condenado à fogueira. Suas descobertas vinham levando-o a discordar cada vez mais da idéias de Aristóteles, então amplamente aceitas, de que o mundo celeste era perfeito e imutável. Além disso, seu freqüente posicionamento contrário às idéias convencionais, bem como o hábito de ironizar seus opositores, fez com que granjeasse grande número de inimizades, até que foi obrigado a se mudar para Pádua. (Esta cidade pertencia então a outra nação: a República de Veneza. Pisa ficava no Reino da toscana. A Itália, tal qual a conhecemos hoje, só seria formado no século XIX.)
Foi em Pádua que Galileu construiu seus telescópios, com base em informações sobre instrumentos semelhantes inventados na Holanda, mas que eram utilizados como microscópios. Ao utilizá-los para observar o céu, Galileu faria constatações irreversíveis sobre a própria ordem do universo: a lua mostrava ter superfície rugosa, com montanhas e crateras, o que contrariava a perfeição que se atribuía aos corpos celestes; o sol apresentava manchas e girava, conforme o deslocamento dessas manchas permitia ver; a Via Láctea, até então vista apenas como uma região mais luminosa no céu, revelava conter milhares de estrelas; Vênus tinha fases variáveis, como a Lua; quanto júpiter, apresentava quatro outros corpos que giravam ao seu redor (e não em torno da terra!). Era a prova de que o universo não estava organizado conforme a versão oficial da Igreja. Ao que se via, ele podia até mesmo ser infinito.
Essas descobertas foram divulgadas numa publicação periódica chamada Sidereus nuntius [O mensageiros das estrelas], alcançando estudiosos em diversas partes da Europa. Galileu também prosseguiu com a fabricação de telescópios, enviando-os a vários países (Um esmplar chegaria a Kepler, que então vivia em Praga). Recebeu um convite para trabalhar em Veneza, o que era extremamente lisonjeiro, mas acabou optando por outro, não menos importante, de Florença.
Num novo livro, chegou a tocar em temas teológicos e, com isso, provocou a ira dos mais conservadores, que levaram o papa Pio V a declarar a teoria heliocêntrica de Copérnico, base de todo o trabalho, como heresia. Isso forçou Galileu a um silêncio que se estenderia por mais de uma década, Em 1632, já no pontificado de um novo papa, Urbano VIII, acreditou poder publicar, sem maiores problemas, seu livro Dialogo dei massimi sistemi [Diálogo sobre os grandes sistemas do universo], no qual duas personagens conversam uma defendendo as antigas teorias, outra as de Copénico.
Pelo conteúdo dessa obra, Galileu foi levado a julgamento no tribunal da Santa Inquisição (organização encarregada de punir os que se desviassem das normas de conduta admitidas pela igreja Católica). Em 1633, com quase 70 anos, foi obrigado a negar suas idéias, sob pena de ser queimado vivo. Conta-se que, após declarar-se arrependido, teria virado o rosto de lado e murmurado em voz baixa: "Eppur si muove!", frase cujo significado pode ser facilmente deduzido: "Mas, aesar disso tudo, a verdade é que ela se move!".
Na última década do século XX, a Igreja Católica se pronunciou oficialmente, reconsiderando o julgamento de Galileu e admitindo ter feito uma condenação injusta.
De acordo com o site: http://www.hmat.hpg.ig.com.br